Berenice
Uma grande nuvem negra estacionou sobre o vilarejo e resolveu que se dissolveria em água ali mesmo. Levou semanas, chuva fraca e contínua, o suficiente para dar a aparência de que tudo e todos estavam mofando.
Berenice levantou cedo, e Marcus despertou ouvindo seu caminhar elefântico adentrando o único banheiro que existia na casa. “A espera seria uma eternidade”.
Com oito anos de idade e uma impetuosa curiosidade pueril que superava todos os ensinamentos dados por sua mãe Anastásia, o garoto saltou mais cedo da cama, bateu na porta do banheiro e insistiu que ela fosse mais rápida no que fazia. O silêncio lhe veio como resposta. “Ela se irritou”, sempre fazia aquilo em qualquer ocasião e com qualquer pessoa que não lhe era muito agradável.
Somente dona Anastácia intitulava Marcus como “meu anjinho”, o resto do vilarejo insistia em chamá-lo pelos diversos nomes do anjo traidor, Berenice nem mais sabia seu nome de batismo, às vezes quando ia lhe chamar a atenção, ficava imóvel como um manequim de lojas para pessoas de corpos grandes, e pensava por alguns instantes, o olhava com um ar de débil mental e então lá vinha mais um dos seus apelidos, às vezes ela inovava, e sorria vitoriosa.
O menino atirou o olho no buraco da fechadura e lá estava Berenice, de costas para o seu olhar, estatizada, nua, um fóssil na frente de seu novo amigo, um espelho que ela insistia em trocar sempre que se sentia incomodada com sua aparência. Erguia a mão esquerda até a nuca, alisando os cabelos cacheados e vermelhos que quase alcançavam as nádegas, no braço esquerdo, como em um varal, estava estendida uma toalha vermelha que lhe roçava a perna, perna essa que mais aparentava ser um tronco de uma árvore centenária, desnuda da casca que a envolvia, mostrando toda a brancura de uma pele que nunca havia visto o sol. Das pontas dos pés até o cume de sua cabeça desprovida de um cérebro atraente, via-se sua forma rechonchuda: cabeça, troco e membros, todos redondos com gorduras expostas de forma exuberante. A cintura inexistente seguia o curso das pernas, como se fossem uma, bolsões de gordura acumulavam-se nas pernas, dando a impressão de Berenice possuir mais duas nádegas em suas extensões. Os pés redondos como os de um elefante sustentavam-se sempre sobre seus tamancos vermelhos, que também eram trocados semanalmente, desta vez devido ao peso.
Diziam que Berenice nunca teve sorte com homens, namorou dois ou três, mas sempre os afugentou com seu gênio demoníaco. Dona Anastácia sempre dizia isso a quem quisesse ouvir.
Ela nunca deu importância aos comentários no vilarejo ou mesmo de sua mãe a respeito de sua solteirice beirando os trinta e cinco. Casar-se com um homem, como os do vilarejo, podariam seus anseios pela raiz.
Berenice sempre quis mais, e a massa cinzenta que não era atraente estava apenas hibernando e aguardando a oportunidade de deixar para trás o vilarejo e seu povinho.